Generosidade...

v Ensine a outros o que você sabe: não importa se é a receita de um cachecol, do maravilhoso prato de família, aquela dica infalível para sair do aperto... Quando a gente é mesquinho, vive pequeno! Seja generoso, mesmo se o segredo compartilhado é parte do seu sustento, afinal, sempre vai ter quem prefere comprar pronto e - com certeza - sempre vai ter quem precisa da sua dica para por o pão de cada dia na mesa. Viva grande!

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A prece do sabiá


Não me lembro quando começou, mas não é de hoje que eu sinto que o tempo está passando depressa demais... Minha avó me dizia, quando eu era pequena, que depois do ano 2000 o tempo ia voar - e eu achava isso impossível de acontecer, pois o tempo, no relógio, anda sempre igual. 

Acontece que minha avó, na sua simplicidade e total desconhecimento das leis da física, estava certa...

Parece que foi ontem que eu fiz minha última postagem - e tanta coisa aconteceu depois dela, numa enxurrada de fatos, sentimentos, alegrias e dores!

Abandonei quase por completo a internet - só dava uma olhadinha no celular de vez em quando, matando saudades dos blogs das amigas, lendo um comentário ou outro das pessoas que não se esqueciam de mim, mas não conseguia postar comentários, prá mim algumas coisas são um tanto limitadas no celular...

Alguém deve se lembrar de uma dessas minhas postagens prá trás, na qual eu comentei que estava com problema nos olhos. Pois bem: aquela coisinha à toa, na verdade, era um problema sério. Num período de cinco meses eu precisei recorrer ao pronto socorro oftalmológico por quatro vezes, com infecções horríveis que me impediam de enxergar direito e me causavam muita dor. A cada uma dessas vezes eu usava pomada antibiótica e colírio com corticoide por 20 dias prá poder melhorar, colírio umidificador o dia todo - pois as pálpebras colavam nos olhos, e logo quando eu começava a melhorar, piorava de novo... Voltava ao médico, ele trocava os remédios, mais 20 dias de tratamento, e piorava novamente.

O último oftalmologista finalmente percebeu que eu tenho psoríase - devido a uma ferida na minha orelha esquerda, que não sara nunca. Comentei com ele que estava numa crise braba, que minhas pernas, costas, barriga e braços estavam todos repletos de pequenas feridas eternas, mesmo com as pomadas prescritas pela dermatologista.

Ele me passou uns exames e me mandou procurar um reumatologista, pois ele tinha quase certeza de que meu problema nos olhos estava atrelado à artrite psoriásica.

Eu nunca tinha ouvido falar disso, mas já havia passado em vários reumatologistas e se eles não viram a psoríase, deviam ser cegos!

Conclusão: corri o risco de ficar cega, sofro de dores constantes pelo corpo todo, nos ossos e nos músculos, e tudo poderia ter sido evitado se alguém tivesse feito um diagnóstico correto em 1988, quando a psoríase começou. Ou pouco depois, na gravidez do meu filho, quando a artrite se manifestou pela primeira vez, eu com apenas 28 anos e já com dores, inchaço e vermelhidão nas juntas!

Agora é tarde, Inês é morta. Agora só posso lidar com paliativos, pois muito estrago foi feito. Acho que nunca mais vou andar sem bengala, nunca mais vou conseguir ter uma boa noite de sono...

Estou tomando uma tonelada de remédios prá amenizar os problemas - e as feridas já me parecem mais calmas, menos vermelhas. Não andam sangrando mais.

E chega de falar nisso.

Vou falar de coisas boas, que alegrem meu coração.

Meu marido me forçou a ir com ele fazer serviço voluntário de sábado, por duas vezes. Disse que eu tinha que voltar a andar no mundo, ajudar a amenizar o sofrimento alheio, prá ver se Deus se compadecia de mim e me ajudava...

Num desses dias eu só precisava ficar sentada em uma perua organizando as doações de alimentos - foi um dia gostoso, todos os amigos e amigas dele me trataram tão bem, tão preocupados comigo. 

No final de nosso trajeto, lá na cidade de Itaquaquecetuba, estacionamos na porta de uma vendinha muito simples, onde havia um sofá velho e uma idosa ali sentada, tomando conta do neto com síndrome de down. Meu marido foi comprar refrigerantes para todos, pedi prá ele comprar também aquelas geléias coloridas de amarelo e vermelho, feitas de mingau de maizena (que eu adoro comer geladinhas) e todo mundo adorou comer também. E enquanto eu estava sentada lá, dentro da Kombi, meu marido brincava com o menininho com síndrome de down, correndo prá todo lado, pegando o moleque no colo, jogando pro alto - o menino até chorou quando a gente foi embora. É como eu sempre digo: a gente tem que estar sempre se apaixonando pela pessoa amada, senão o casamento não funciona. Esse homem cheio de energia e de coração bondoso é o homem que eu vou amar prá sempre...

Mas não voltei mais nesse serviço voluntário. Fiquei tão moída de rodar o bairro cheio de altos e baixos, buracos e lombadas - não conseguir pregar o olho naquela noite. Fiquei triste, me sentindo uma inútil...

Meu marido percebeu e me levou em outro lugar. Um grupo de voluntários que prepara e distribui, todo sábado, há mais de 18 anos, marmitas a moradores de rua e pessoas em situação de pobreza extrema, num bairro da periferia da zona leste.

Pude ficar sentada a maior parte do tempo, descascando e picando alho, tomate, cebola, repolho... Piquei e refoguei toicinho prá por no feijão e no macarrão. Cortei fatias de pão sovado e com elas fiz sanduíches de patê de mortadela...

Depois de montadas mais de 200 marmitas fumegantes, fresquinhas e bem fartas fomos para uma praça, onde já nos esperavam homens, mulheres, jovens, velhos e crianças...

Sentaram-se em volta dos canteiros das plantas e árvores da praça e aguardaram receber o alimento. Um pastor evangélico, que faz parte do grupo de voluntários - que reúne espíritas, católicos, evangélicos e até mesmo ateus - fez uma bonita oração e os homens começaram a distribuir as marmitas. A praça é um tanto íngreme, localizada numa ladeira, e com a dificuldade de me locomover eu me pus próxima ao carro, apoiada na bengala, apenas olhando...

Vi rostos encovados, sorrisos escancarados de felicidade quase sem dentes na boca, agradecimentos humildes e sinceros pela única refeição decente da semana...

Arroz, feijão, salsicha com molho, escarola refogada, macarrão alho e óleo com bacon, salada de repolho, sanduiche de patê de mortadela... Tang de laranja... Prá quem queria ganhava uma colherada de molho de pimenta que um dos voluntários prepara fresquinho todo sábado - e que faz o maior sucesso, não sobra uma gota no pote de 5 quilos que ele traz...

Muitas das pessoas vinham até mim... Viam todo mundo trabalhando, atarefados prá lá e prá cá - e eu, uma mulher muito branquinha, parada no alto da praça de bengala e se confundiam, achando que eu era a manda-chuva... Chegavam perto de mim, se curvavam em reverência, me diziam que minha obra era magnífica, se eu fazia ideia de como era importante prá eles receberem esse alimento, essa atenção, se sentirem gente de verdade!

Muitos eram moradores de rua, usuários de drogas... Falavam comigo com os olhos praticamente em chamas, quase delirando de felicidade...

Senti tanta vergonha... Por que Deus deixou eles agradecerem justo à mim, a quem menos ajudou?

Senti tanta tristeza...

Tem tanta coisa errada no mundo - e a gente fica paralisado, reclamando da situação política do país, da própria saúde, perdendo tempo com tanta bobagem enquanto tem gente por aí fazendo realmente a diferença - mesmo que seja apenas uma vez por semana...

No final eles ainda ganharam sobremesa: pacotinhos de plástico, amarrados com um lacinho, contendo 3 bombons cada. A mãe do chefe do grupo de voluntários deu um saquinho prá mim, dizendo que quem trabalha também merece adoçar a boca com um docinho - e eu não me achei merecedora, então caminhei até uma jovem mãezinha, sentada na muretinha da praça, alimentando o filho menor... Seu rosto lindo havia me chamado atenção de imediato, tão menina ainda com três filhos, bem juntinhos dela, tão quietinhos e educados...

Ela me agradeceu e disse que já havia ganhado o suficiente, que podia fazer falta prá alguém que chegasse atrasado na distribuição - sempre tem os retardatários, ela me disse sorrindo, tão meiga...

Tão boa, sem querer tirar de ninguém, mesmo sendo necessitada...

Ela ficou gravada na minha mente, seu sorriso calmo e sem revolta, os filhos tão juntinhos dela, como pintinhos debaixo das asas da mamãe galinha...

Deus sempre me dá boas surpresas na vida, quando eu abro os olhos prá ver.

Eu ainda fico limitada pela minha saúde... Meus filhos tem ido no meu lugar, meu marido...

Acho que meus tempos de voluntária se foram. Senti raiva de mim, que já fui tão ativa, tão cheia de energia e de iniciativa!!!

E então, numa noite fria, coloquei uma touca na cabeça prá conseguir dormir - pois me doíam todos os ossos e até as maçãs do rosto e os dentes que eu não tenho mais me doíam - e eu tive um estalo: vou fazer toucas prá todos!!! Cada um vai ganhar uma marmita, um copo de suco, uma caneca de arroz doce ou um chocolate e uma touca!!!

Se morarem na rua e não tiverem onde lavá-la, depois de suja, que a descartem quando o frio passar - mas neste inverno suas cabeças vão ter uma touquinha prá se esquentar!!!

Fui atrás de todos os meus cones de lá parados, novelos perdidos, peças começadas e nunca terminadas...

Fiz toucas à mão e à maquina, uma de cada vez, em várias cores e tamanhos. A cada uma que eu fazia eu rezava: "Deus pai, abençoa a pessoa que vai receber esta touquinha, que se a cabeça que ela vai aquecer estiver triste, manda consolo, esperança... Que ela não se sinta só e nem abandonada, pois o Senhor, que é pai dela inspirou uma velha a lhe fazer essa touca..."

Cada touca uma prece. Cada prece algumas lágrimas, muitas súplicas, tristeza por ser tão pouco, alegria por ser alguma coisa.

Teve até touca feita de fios emendados, toda colorida:


Quando me dei conta haviam 230 toucas prontas - bem a tempo da chegada de uma frente fria.

Meu marido e meus filhos foram no trabalho voluntário, distribuíram as marmitas e as toucas - que fizeram muito sucesso. Todos adoraram, vestiram - e ainda sobraram toucas prá alguns dos trabalhadores voluntários, que também são pessoas pobres, a grande maioria deles.

Um deles, outro dia, ligando aqui em casa prá falar com meu marido, quando soube quem eu era me agradeceu pela touca, disse que eu era muito talentosa... Quem dera fosse mais rápída, prá fazer ainda mais.

Eis algumas fotos da tal praça, das pessoas que agora tem uma touca minha:
 



E eis a doce mãezinha que me inspirou:



Não é linda?

Quando comecei a fazer as toucas tratei como um projeto: "Toucas prá Jesus", eu pensei em chamar, porque no evangelho Jesus disse que cada vez que a gente desse comida prá quem tem fome, água prá quem tem sede, cobrisse a nudez de alguém, desse assistência a um doente ou visitasse um preso, em nome dele, a ele estaríamos fazendo tudo isso - então pensei que cada touca era destinada a Jesus, mas recebida em seu nome por um pobrezinho...

Mas depois, pensando e pensando muito, me dei conta de que, apesar de amar a Jesus infinitamente, estava fazendo as toucas pros pobrezinhos mesmo... Projeto "Cabeça quente" - não soa melhor, menos pretensioso? Para o ano que vem vou fazer pelo menos  dobro de toucas, começando logo e ajuntando, fazendo um pouco a cada semana. Tem uma favela ali perto do metrô Belem onde voluntários também distribuem marmitas - vou descobrir como entrar em contato com eles e mais e mais pessoas vão ganhar toucas...

Projetos, projetos... A vida tem que ter projetos... Porque assim a gente se ocupa, distrai a cabeça dos próprios problemas, segue vivendo com a felicidade que nos é permitida...

Quando chega a noite eu me pego pensando que em vários lugares existem pessoas com a cabeça quentinha usando uma touca que eu fiz, com muito amor e isso me faz bem pro coração, me alimenta a alma. Não é como se eu tivesse salvo vidas ou mudado o destino do mundo, são só minhas migalhas, mas me faz feliz!

Umas duas semanas atrás eu e a Lola estávamos abrindo o portão prá minha Naninha ir pro plantão - eram 5 horas da madrugada. Tem um sabiá que mora em um dos meus pés de fruta do quintal que começa a cantar por volta dessa hora, canta alto, todo santo dia... Sempre me acorda.

A Lola comentou que ele anuncia que logo o dia vai nascer, daí a uma hora, mais ou menos.

Eu penso diferente. Ele não anuncia a chegada do dia: ele é quem faz o sol nascer.

Muitos anos atrás - eu ainda era uma menina - aqui no meu bairro tinham muito mais árvores, muito mais sabiás... Eles sempre me acordavam antes da hora e eu não conseguia mais dormir - sentia até raiva deles...

Então, um dia, li num livro que o homem primitivo achava que o mundo estava acabando quando acontecia um eclipse. Em sua mente havia o dia, com sua duração, e havia a noite, com a dela. A noite era cheia de perigos; até a descoberta de como fazer o fogo prá espantar os predadores os homens viviam no alto das árvores, como os macacos...

Quando um dia, em sua plena duração, tinha a luz arrancada sem explicação, era um terror! Haviam mortes, sacrifícios, prá fazer o sol voltar a brilhar...

Foi assim que eu entendi: na cabecinha do sabiá (que é bem menos inteligente que um homem primitivo...) toda noite é o fim do mundo. Toda noite o sol desaparece,  morre, vai embora prá nunca mais voltar...

E depois de passar uma noite triste, calado, infeliz, ele resolve tomar uma providência. Levanta do canto onde se escondeu, sacode a tristeza das penas e canta:

"Volta, luz, que sem você não tem vida! Volta a brilhar de novo, amado sol, que precisamos de você prá existirem flores e insetos, pro céu ser azul e eu poder voar novamente. Volta sol, que eu te amo mais que tudo e sem você não sou nada!"

E lá fica o sabiá, corajosamente enfrentando a noite, cantando até que sua canção dê certo.

Quando eu descobri isso seu canto parou de me incomodar. Eu acordo de madrugada e canto dentro do meu coração junto dele, pedindo prá Deus nascer no mundo, nos corações dos seres humanos, prá sua luz inundar cada canto, cada fresta, cada ideia e cada pensamento.

A escuridão nunca vai vencer.

Nem o sabiá e muito menos eu vamos deixar.

Até qualquer dia.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Irmãos e irmãs


Algumas coisas que hoje acho fácil - e até prazeroso - fazer já foram um bicho de sete cabeças prá mim. Escrever, por exemplo. Embora meu blog esteja meio abandonado às traças - por falta de tempo, diga-se de passagem... - escrever é uma das coisas que mais gosto de fazer. 

Às vezes acho que se me fosse dada a chance, se eu não tivesse obrigações para com a minha casa, minha família, minha saúde e diversas pessoas que precisam de mim à minha volta eu poderia me sentar na frente do computador e digitar uma história atrás da outra - principalmente porque minha cabeça vive atolada delas e à cada dia que vivo neste mundo mais e mais histórias chegam para abarrotar meu baú...

Esta é uma história de dois tempos: um pedaço dela é passado e uma corrente invisível a prende a sua parte no presente - e, se querem saber, muito provavelmente será uma história de três tempos, pois muitos personagens foram surgindo e participando dessa novelinha triste...

Uma vez - eu estava na terceira série do primário - minha professora Dona Antonia nos deu uma redação de uma folha ou mais sobre os passeios que tínhamos tido nas férias do meio do ano. Coisa mais fácil para a maioria das crianças, com seus passeios para a praia, suas idas ao clube ou visitas às casas dos parentes. Não prá mim. Acreditem se quiserem: minha redação foi toda sobre minhas visitas ao cemitério da Penha junto de minha avó, para ajudá-la a pintar o túmulo do meu avô e replantar as flores. Foi uma redação muito difícil de fazer, pois eu bem sabia que aquilo não era passeio. 

Mas eu não podia entregar uma folha em branco prá minha professora...

Nem preciso dizer a cara de pena dela e a zombaria de que fui alvo por conta das outras meninas...

Acontece que o único outro passeio que surgia era um que eu odiava fazer: visitar minha nona. Eugênia era seu nome e Deus me perdoe, mas eu não gostava de visitá-la. Ela havia morado um tempo conosco e não havia dado certo: ela passava o dia todo sentada na varanda apreciando a vida ou deitada na cama descansando - ao contrário da minha avó Leonarda, que sempre vivera conosco, e que era o braço direito e esquerdo de minha mãe: dava banho nas crianças, lavava as roupas, fazia comida, enquanto minha mãe costurava, trabalhava de manicure, vendia roupas - o que precisasse e aparecesse e fosse honesto prá colocar o pão na nossa mesa. 

A nona não ajudava com nada: dormia na melhor cama, se servia da maior parte da comida - a ponto de beber sozinha o pouco leite que tínhamos, deixando os pequenos sem mamadeira... Quando qualquer pessoa dizia prá ela que o leite era pros mais pequenos ela respondia que tudo ali era do filho dela e que, por isso, era dela.

Pobrezinha. A vida havia sido muito dura com ela e, por causa disso, ela abocanhava tudo o que podia, quando aparecia na frente dela, sem pensar em mais ninguém... Mas, naquele tempo - ao contrário de hoje - meu coração ainda era um pouquinho duro (enquanto hoje tá mais prá uma polenta...) e eu não tinha muita paciência com ela... Também era difícil: minha avó Leonarda deixava de comer prá dar prá gente - dava prá não comparar?

Infelizmente, no final, eu acabei falando pro meu pai que ela tinha que ir embora - sempre eu, pois se dependesse da minha mãe ela não abria a boca, de medo de apanhar e as coisas ficavam como ficavam. Eu disse pra ele que ela não podia ficar porque comia tudo sozinha e ela voltou a morar com uma das filhas - e eu levei uma bela surra, daquelas bem dadas de cinta com fivela...

Tadinha. Com qualquer filha que ela ficasse sua vida era um inferno. Tão pequenininha - menos de um metro e meio - corcundinha, quase cega... Me lembro que quando ela bebia café a ponta do nariz encostava no líquido e ela o queimava - tão nariguda que era... Acho que vou ficar igual - maldito gene italiano esse que de algum lugar da Itália gerou essa napa...

Bom, como eu ia dizendo antes de ser interrompida por mim mesma e minhas lembranças, o pior passeio do mundo era visitar a noninha. 

Fosse na casa da tia Clarice - uma mulher enorme e extremamente branca, com cabelos encaracolados compridos pintados de preto retinto e lábios finos mal pintados de batom vermelho - ou na casa da tia Ivone - que fazia o tipo mulherão, muito peito, muita bunda, olhos verdes enormes e cheios de maquiagem - o passeio era sempre assustador.

Ambas eram mulheres repletas de vícios e cujas virtudes eu desconheço completamente - embora deviam tê-las, como todo ser humano, mas nunca vi, então não posso falar.

Posso falar que bebiam como homens, riam e falavam alto, diziam muitos palavrões e tratavam a mãe pior do que algumas pessoas costumam tratar seus cachorros. Era costume a gente encontrar a noninha cheia de hematomas - e, com as filhas perto, ela dizia ter tomado um tombo, daí as filhas saíam e ela agarrava a gente e praticamente gritava nos nossos ouvidos um pedido de socorro, que as filhas é que batiam nela...

Meu pai então descia o sarrafo nas irmãs - coisa imbecil de se fazer, pois depois que a gente saía sobrava prá pobre velha...

As casas de ambas eram sujas, paredes encardidas, fogões cheios de crostas, banheiros imundos e fedorentos. Elas eram mulheres fortes e saudáveis, mas sofriam de preguiça crônica. Na aparência andavam alinhadas - limpas, bem penteadas (especialmente a tia Ivone, que era muito bonita) mas fora isso... 

Hoje também sinto pena das duas - como eu disse, a gente vai ficando velha e somos diferentes das galinhas: dizem que as galinhas velhas só servem prá caldo, pois ficam com as carnes duras - mas nós, mulheres humanas, vamos ficando molinhas por fora e por dentro, eu acho. Pelo menos eu tô ficando mais mole a cada dia...

Então... Num desses passeios (forçados) à casa da minha tia Ivone - prá piorar foi num fim de tarde, chegamos lá já tinha anoitecido e qualquer lugar deprimente à luz de uma lâmpada de 60 velas fica ainda mais deprimente - e lá meu pai bateu palmas à porta.

Minha tia Ivone apareceu, arrumada e perfumada e questionada por meu pai disse que ia sair daí a pouco com uma amiga, visitar alguém doente (e parece que naquele tempo essa desculpa ainda era fresca, pois meu pai nem fez cara de "sei...")...

Meu pai foi até o sofá de molas quebradas, afundado no meio, onde a nona se sentava curvadinha e cega, naquele cômodo escuro e mal ventilado.

Cheirava a urina a pobrezinha... Hoje eu me lembro e sinto vontade de chorar o que não chorei, de sofrer o que não sofri - e amaldiçoo a passagem do tempo, que está me fazendo ficar assim... Mas dou bronca em mim mesma e me digo que de nada adiantaria, que já passou, daquela gente gente toda a única que tá viva ainda sou eu e chorar não vai fazer ninguém mais feliz nem mais nada...

Meu pai foi até ela, a levantou no colo como se fosse uma boneca, a encheu de beijos piniquentos de barba por fazer (que ela reclamava rindo e rabugentando ao mesmo tempo) e ele a chamava de "Catatau" - minha Catatauzinha velha, Catatau "fidida", Catatau linda... As pessoas mais malvadas, de coração mais duro, muitas vezes tem um afeto sincero e comovente por alguém - e pro meu pai essa pessoa era a mãe dele. Ainda bem, fico feliz por ele. Seria muito duro se ele não amasse ninguém...

Enquanto ele passava um tempo ali, com sua mãezinha velha, eu tive minha atenção chamada prá uma pequena prateleira que ficava presa na parede entre o fogão e a geladeira, tão encardida quanto tudo o mais na casa, mas que adquiriu um fascínio imediato aos meus olhos de criança: dispostos na prateleira haviam miniaturas de garrafas de Coca Cola, Guaraná Antártica, cachaças e vinhos, todos enfileirados e bonitinhos - parecendo terem sido criados especialmente prá crianças brincarem com eles! Todos amostras que minha tia recebia por ser promotora de bebidas (o emprego certo prá ela - seria como se me colocassem prá vender chocolates, praticamente...). 


E dentre as garrafinhas haviam dois bonequinhos de comercial de televisão, de uma marca de arroz conhecida naquele tempo. Um deles era o arroz Brejeiro - um grão de arroz alto e bonito, de chapéu, todo alinhado - e seu rival arroz Marinheiro, que representava as marcas de arroz inferiores, cujos grãos vinham quebrados no pacote, que era um grão meio torto e baixinho, com uma perninha de pau.

Meus olhos quase saltaram da cara e eu pedi prá minha tia se ela podia me dar o bonequinho!

-"Qual deles?" - minha tia Ivone disse.

-"Ora, o marinheiro, é claro!" - pois era claro prá mim, o grandão branquinho era tão sem graça, sem personalidade em sua perfeição de formas! O Marinheiro era feio mas era ele, não era qualquer coisa branca e perfeita, era perfeito na sua feiura e rabugice...

Minha tia Ivone me disse que podia me dar o Brejeiro ou qualquer garrafinha que eu quisesse - mas não podia me dar o Marinheiro, de jeito nenhum.

Como eu insistisse muito, como as crianças fazem,  minha tia pegou o boneco da prateleira, me levou prá mais longe do meu pai e me mostrou o motivo de não poder me dar o bonequinho:

-"Não posso te dar este boneco porque ele é teu pai! Tá vendo o chapéuzinho dele? Eu cortei aqui em cima e enchi de pinga - é uma mandinga pro teu pai, menina boba. Se contar prá alguém faço uma prá você também, não duvida. Por causa deste bonequinho teu pai vai beber até morrer..."

Saí dali tão assustada...

Cheguei em casa contei prá minha mãe e prá minha avó, que se puseram a rezar, dizendo que isso nunca ia acontecer, que Deus não ia deixar.

No entanto, demorou muito prá Deus não deixar... 

Meu pai bebeu quase a vida inteira, como sua irmã havia dito. Contudo, depois do primeiro derrame, sem forças nas pernas prá andar sozinho na rua, após pedir ajuda prá meu irmão Tato prá ir resolver "problemas inadiáveis" que acabaram sendo no bar, ficou permanentemente preso por minha mãe em casa - onde não lhe faltava Uma boa televisão colorida sóprá ele, boa alimentação com frutas e verduras em abundância, bolinho de fubá sempre que lhe apetecia, barba e cabelo aparados no capricho por minha mãe e apenas 4 cigarros por dia - e nenhuma cachaça, nem mesmo cerveja.

Viveu por onze anos após o segundo derrame, sem uma gota sequer de álcool no sangue. Viveu quase vinte anos a mais que essa irmã, que tanto mal desejava a ele.

Passou, se foi, ainda dói quando eu lembro - como não. Mas passou.

Dia desses um dos meus irmãos ficou cercando de atenções e gentilezas uma das minhas irmãs - a que é solteira, muito doente de asma, sofre de obesidade mórbida - até aparecer com um papel prá ela assinar, abrindo mão em favor dele da parte da herança que ela tem direito pela morte de meu pai. 

Disse que era só prá ver se ela era uma pessoa de Deus, que também não se apega aos bens materiais, como ele, a esposa e as filhas são. Pastor evangélico, diz que ele e sua família "não são deste mundo" como o resto de nós, que só queria esse papel assinado por ela como "uma prova de fé"...

Depois disso minha mãe me pediu ajuda prá fazer um testamento, no qual ela pretende doar a parte que a lei lhe permite pros filhos mais necessitados, tentando assim protegê-los como não foi protegida...

Fui com ela no tabelião me informar, com o coração na mão. Eu de bengalinha azul, nós duas de Uber - que aprendi a usar (Uhuuuu!), nós duas de coração apertado no peito.

Duro saber que depois de tanta dor, tanta fome, tanta privação que passamos todos juntos um dos meus irmãos quer tirar o pouquinho do pão da boca dos outros!

Minha mãe sabe que eu não quero nada - renunciei em favor do Tato. Meu marido concorda comigo, também meus filhos. Minha mãe insiste que eu tenho direito, que eu sou filha, que pela lei uma parte é minha - mas meu coração tem outra lei, preciso obedecê-la em prol da minha paz.

A vida já me deu tanta coisa - batalhei por tudo, mas a vida me deu. Toda vez que agi certo a vida me ajudou, sempre - nunca Deus me deixou na mão, então... Tem gente que batalha a vida toda e não consegue nada - eu consegui. Meus irmãos precisam mais do que eu e assim não quero nada.

E olhando por uma outra perspectiva, é tudo uma questão de lógica na educação. Vejam bem: falar pros meus filhos se amarem e se ajudarem sempre é uma coisa - acaba caindo no blá-blá-blá. Muito do que se ouve entra por um ouvido e sai pelo outro. Mas se eu vivo a coisa, se eu demonstro pros meus filhos como eu acho certo agir, sirvo de exemplo. Mais do que através de palavras eu vivo e deixo gravado nos corações deles que, em qualquer momento das vidas deles, se um precisar do outro, tem que ajudar. Trabalho de irmão nunca acaba - assim como trabalho de mãe. Tem que amar sempre, estar sempre pronto prá estender a mão e ajudar.

No fim, a gente vai embora mesmo e não leva nada...

Meu marido só fica bravo de eu ter que andar com minha mãe prá lá e prá cá, ora confortando, ora levando no médico, ora cuidando de documentos. Diz que eu tenho outros irmãos, "ninguém mais pode ir, tem que ser você?" e eu respondo que nem me pergunto isso. Nem quero saber se outro pode ir no meu lugar. "Minha mãe não vai viver prá sempre e eu não quero ter nenhum arrependimento, é pesado demais carregar isso pela vida toda..." e faço o que quero, com todo o respeito que devo a ele.

O meu seriado favorito de televisão - Doctor Who - me diverte e me ensina muito. Tem uma frase que o Doutor diz que é assim:



"Somos todos histórias no final. Apenas façamos com que seja uma boa história"... Tão simples, não é mesmo? E tão verdadeiro! Hoje compartilhei um pouquinho das histórias minha e de outras pessoas que já se foram. E se eu contei, elas ainda não caíram no esquecimento - ainda vivem neste universo, servindo de testemunho de sua passagem, distração e exemplo prá quem lê. Infelizmente, nem todas tiveram final feliz...

Querem mais uma alusão televisiva, do tipo "a vida imita a arte"? Big Brother Brasil. Ô programinha de m*, representação maior do que a humanidade tem de mais medíocre! Um bando de gente desocupada... Pois bem: todos nós vivemos num grande Big Brother, no qual somos assistidos o tempo todo por nosso Pai, que está em toda parte e não apenas no céu, mais nossos anjos da guarda e todos aqueles que amamos e que se foram antes de nós. Que audiência devemos ter! E que tristes imagens devemos transmitir às vezes... Então façamos o melhor de nós, sempre - se não por nós mesmos, se não pelo próximo, pelo menos pela audiência!

Mudando de assunto: meu segundo neto nasceu - olha ele e o mais velho aí:


Lindos, não são? E eu fiz um pikachu pro mais velho, estilo naninha, enorme e muito fofo, totalmente lavável... Adorou.





Ando fazendo uns tratamentos muito doidos - além de acupuntura uma vez por semana estou também fazendo auto-hemoterapia (espia os hematomas que eu posso mostrar):




Também tô bebendo kefir de leite e kefir de água e caroço de abacate batido com água, tomando água com cloreto de magnésio, esfregando nos dodóis álcool com rama de melão caipira e rezando mais do que nunca - acho que se acreditasse em macumba prá ficar melhor, tava fazendo... 

O problema é que quando eu melhorar não vou saber o que foi que deu certo...

Minha mãe precisa de mim, meu irmão, meu marido e meus filhos... Tia Joanita me liga duas vezes por dia prá conversar as coisas mais banais só por conta da solidão e lá se vão mais de duas horas da minha vida. Queria acreditar numa daquelas religiões nas quais, depois de morta, a gente fica dormindo - pois me sinto tão cansada às vezes...

Mas seja o que Deus quiser. Enquanto precisam da gente a gente arruma forças, não é assim? Então, se eu sumir de novo, saibam que estou viva, muito viva. Só que na vida real, não na virtual...

Até qualquer dia!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Um gato e alguns passarinhos

Primeiro que tudo - o gato:


É um saco de dormir prá bebê, pro meu netinho Fernando que vai nascer em março. Eu não pude ir no chá de bebê dele, não estava boa prá ir em festa (e foi maravilhosa, tantos docinhos, um bolo lindo, muita Coca Cola... Eu teria me esbaldado, "deitado o cabelo" nas guloseimas, mas minha família disse que eu não estava em condições, então me rendi ao inevitável. Você sabe que a coisa tá feia quando não te deixam ir a uma festa - se bem que eu me conheço, eu ia até melhorar no meio de tantas delícias... Mas, fazer o quê, né?...). Daí eu liguei prá ela, dizendo que não podia ir, que eles iam levar o presente que ela pediu - fraldas GG de montão - mas que eu queria fazer algo especial e tava pensando em fazer um saco de dormir, pois eu nem sabia que os tais existiam, tinha descoberto uns lindos no Pinterest e queria fazer... Ela então me pediu prá fazer grandão, pois já tinha ganhado um pequenininho de presente adiantado de uma prima e quando o inverno chegasse não iria servir mais.

Fiz esse de brim branco - ia fazer de soft ou de plush, tecidos mais macios, mas não são tecidos naturais, algodão é que é bom prás criancinhas - e brim é 100% algodão. 

Fiz ele bem grande, recheado com manta R2, todo matelassado. 

Comprei um travesseiro bem fofo, tirei ele do forro original, fiz um forro novo, oval, prá se acomodar no formato do gatinho. Depois do formato do gato ter sido dado, recheei as perninhas, bracinhos  e orelhas com manta acrílica e costurei um pedaço de tecido redondo, do tamanho de cada abertura, por dentro, fechando essas partes, pro enchimento não escapar - pois seria muito ruim fazer o forro também com orelhas, braços e pernas. Essas partes ficam fixas. Isso porque eu o fiz lavável - e só dava prá fazer desse jeito com a intenção de retirar o travesseiro de dentro.

Vejam que ele tem um zíper atrás:


É só abrir o tal zíper, remover o travesseiro, colocar na máquina prá deixar bem lavadinho, secar no sol e rechear com o travesseiro de novo.


E o zíper da frente é prá abrir e colocar o bebê dentro - o travesseiro de dentro é bem fofinho, afunda bem macio e vai caber o bebê confortavelmente lá dentro - e ele vai dormir quentinho e quietinho, sem se descobrir a toda hora.

Tem uma carinha simpática... Bordei com pedacinhos de feltro e linha de crochê.


Depois, quando não está sendo usado, pode servir prá enfeitar o bercinho, que ficou um gatinho bem engraçadinho - copiei de um gatinho que eu vi vendendo no Etsy, mas esse era pequeno, prá criança brincar...

Quando meu netinho crescer e não couber mais dentro o gato pode ser usado como almofada ou como porta pijama em cima da cama...

Agora vou ter que fazer um do Pikachu pro meu netinho mais velho, mas prá ele vou fazer menor, prá ele dormir abraçado - pois ele dorme abraçado num travesseiro... Acho que esse eu vou fazer de plush ou soft, pois acho que não tem mais perigo de dar alergia, ele já tem 4 anos de idade...

E então? Gostaram?

Agora vamos aos passarinhos...

Ano passado minha mãe me ligou no final de uma tarde chuvosa, toda alegre, me dizendo:

-"Ai, Rosa, você nem sabe... Tô toda ensopada..."

-"Por quê, mãezinha? A senhora saiu na rua num tempo feio desses?"

-"Não, filha... Eu tava lá fora segurando o guarda-chuva no ninho da passarinha... Ainda bem que teus irmãos chegaram e amarraram o guarda-chuva em cima do ninho, prá proteger os ovinhos..."

Essa minha mãezinha... Tá ficando cega, sofre de mácula degenerativa. Lê a Bíblia usando uma poderosa lente de aumento, pois os óculos estão praticamente obsoletos pros olhinhos cansados dela... Mas graças aos meus irmãos ela soube onde uma rolinha tava fazendo ninho: numa árvore violeteira que fica do lado da escada de entrada da casa... Então, estando sozinha em casa quando o temporal começou, ela imediatamente pegou o guarda-chuva e foi proteger o ninho da rolinha e se ensopou toda!

-"Mas mãe? E o teu reumatismo?"

-"Ah, filha... Deus protege! Tô tão feliz que nem me lembro das dores..."

Daí meus irmãos, prá isso não se repetir, pegaram uns arames e prenderam o guarda-chuva permanentemente protegendo o ninho, de forma que o mesmo não saísse voando com o vento. A passarinha parece ter entendido que estava sendo protegida, pois se deixou ser fotografada e até filmada pelo meu irmão... Eu peço prá ele me mandar as fotos pelo zap, prá eu poder postar - e ele, apesar de ter aprendido (comigo) a mexer, sempre esquece...

O guarda-chuva ali permaneceu enquanto os ovos eram chocados. Os filhotinhos nasceram, ela os alimentou - e o guarda-chuva lá, fazendo sombra e protegendo da chuva. Minha mãe acompanhou todo o processo, até os filhotinhos aprenderem a voar e todos eles abandonarem o ninho, seguindo suas vidas pelos céus afora da nossa Penha.

Minha mãe garante que a passarinha aparece volta e meia na janela prá visitá-la.

Então, duas semanas atrás, logo depois de uma chuva, um filhote de passarinho que não sabia ainda voar caiu do ninho bem no meio do jardim da minha mãe - que está ficando cega, sim, mas escuta que é uma maravilha e tem a cabeça afiada, melhor que a minha...

Ela escutou os pios do coitadinho e foi procurar, no meio das plantinhas... 

Ele fugia andando, com as perninhas fininhas igual palitinhos, e se escondia no meio das plantas. 

Meu irmão Tato havia comprado uma casa de passarinhos, sonhando que aquela passarinha do guarda-chuva e seus filhinhos quisessem permanecer no jardim prá sempre - ficou tão triste que isso não aconteceu! 

Ah, se vocês conhecessem meu irmão Tato! Ele é tão lindo!!! É alto, muito forte, tem a pele bem bronzeada, pois sempre trabalhou de pedreiro, dois olhos verdes que parecem faróis, brilhando no rosto... Mas só começou a falar papai e mamãe com 7 anos, tem a mentalidade de um menino de 12 - e as mulheres que o veem o acham lindo, paqueram, convidam prá sair - e ele fica todo vermelho, envergonhado... 

Acorda todo dia antes das 6 da manhã prá rezar o terço prá Nossa Senhora, de joelhos, e fica falando assim: "Cuida da minha Rosa, Nossa Senhora! Cuida da minha Cida, da minha Fátima..." e vai desfiando os nomes de todo mundo na família - nunca reza prá si mesmo...

Pois eu aqui divagando, falando do meu Tatinho... Ele foi lá pegar aquela casinha de passarinho, que ele havia guardado todo triste, colocou ela apoiada na terra do jardim e ficou espiando da janela da sala - até ficar todo satisfeito que o passarinho tava se escondendo lá dentro, quando ameaçava chuva...

Durante 6 dias o passarinho viveu na casinha sobre a terra. Comeu dos bichinhos do jardim - e lá tem muitos, pois minha mãe e ele fazem compostagem com todos os restos de verduras e de frutas e adubam a terra - e era visitado por outros passarinhos - talvez os pais, quem sabe. 

Daí ele aprendeu a voar e se foi - livre como os passarinhos devem ser. Se os passarinhos das gaiolas pudessem sonhar, sonhariam ser ele, eu acho...

Então ontem, no final da tarde, minha mãezinha me liga.

-"Ô, filha, você tá bem? Não falo com você desde ontem de manhã!"...

E eu peço milhões de desculpas, pois realmente pisei na bola. Fui na dentista, cheguei em casa cheia de coisas prá fazer, uma correria doida essa minha vida, acordei e montanhas de coisas prá fazer e, no vai-prá-lá e vem-prá-cá me esqueci de ligar prá ela. 

Depois de muita desculpa e muitos "eu te amo, mãezinha" ela começa a me contar de mais uma aventura entre passarinhos.

-"Sabe, filha, um passarinho cismou de fazer ninho naquela minha roseira maior - e, pobrezinho, ficou todo enroscado!"...

-"Mas, enroscado como, mãezinha?"

-"É que eles usam de tudo prá fazer ninho - galhos fininhos, folhas secas, fiapos de vassoura... Esse usou fios de linha - que sei lá onde arrumou... Eu sei que ele tava tecendo o ninho e deve ter vindo um vento, os fios começaram a se enrodilhar nas perninhas dele e, de tanto se debater, acabou ainda mais preso. Eu escutei a barulheira vindo do jardim e, quando fui ver, o pobrezinho estava pendurado de ponta cabeça pelas perninhas! Que dó..."

-"E daí, mãe? Me conta o que aconteceu com o pobrezinho?"

-"Ah, teu irmão Paulo chegou bem nessa hora - eu tava até com medo de pegar no passarinho e machucar ainda mais ele, medo de lhe quebrar as perninhas, ou as asinhas quando ele se debatia... Teu irmão pegou uma tesoura e separou o passarinho da roseira, levou ele prá dentro de casa e, sentado na mesa da cozinha, onde bate bastante luz, pegou uma gilete e com todo cuidado do mundo, foi cortando fiozinho por fiozinho que prendia as perninhas dele. Parecia que ele sabia que a gente tava ajudando ele: ficou tão quietinho, não bicou teu irmão! Bom, quando o Paulo cortou o último fio o passarinho voou todo satisfeito pela janela!"...

A voz da minha mãe tava toda feliz, toda remoçada. Minha salvadora de passarinhos, minha menina sonhadora, tão velhinha, com cabelinhos branquinhos e fininhos como os de uma criança!

Como gosto de vê-la feliz - ela, por incrível que pareça, é como eu: se contenta com pouco, um passarinho voando livre já lhe arranca um sorriso e um suspiro...

Eu sei que, às vezes, passo outra impressão - especialmente depois da postagem sobre a tristeza. Não posso fazer nada - cada um é como é. Podemos culpar alguém que nasceu diabético, ou surdo, ou cego, por ser do jeito que é? Eu sei que eu sou privilegiada, muito amada, muito cuidada, tenho uma família linda... Se eu vivesse com os olhos apenas voltados prá minha vida, tudo seriam risos - mas não é assim que vivemos, não é mesmo? O meu mal é ser muito consciente do mundo à minha volta - não consigo ser alienada, cabecinha fresca (bem que eu gostaria...). Jesus já dizia: a boca fala do que está cheio o coração e o meu tem uma quantidade de tristeza bem acima da média... E como poderia ser diferente, gente do céu? A gente liga a televisão e vê tudo o que acontece no mundo - e nem precisa ir tão longe no planeta, viram o caos que está no Espírito Santo? A filha vem e conta prá gente todas as maldades que falaram na morte da mulher do Lula (gente sem cristandade nenhuma, por mais que alguém errasse comigo eu não falaria os absurdos que falaram, eu jamais desejaria o mal assim - nem pro Hitler, como é que pode ter gente de coração tão duro nesse mundo, Deus do céu?!)... Isso tudo machuca meu coração: maldade, ignorância, preconceito, falta de fé. Mas foi Deus quem me fez assim... 

No entanto eu prometo me policiar, falar de coisas amenas, flores e passarinhos - o mais que der. Afinal eu não quero que este blog tenha uma trilha sonora ao som de violinos tristes.

Eu gosto muito de ouvir aquela música boba dos minions, sabe qual é?

"Because I'm happy!"...

Porque eu sou - feliz, de verdade.

Mesmo tendo um coração meio triste...

Até.
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